Receita de salmão com tomates ao forno

Ontem testei esta receita de salmão ao forno do iG Receitas e a única mudança que fiz foi a troca das ervas e o tempo no forno.

Salmão com ervas e tomate

Salmão com ervas e tomate: ficou assim

INGREDIENTES

  • 4 filés de salmão (180 g cada)
  • 2 tomates médios cortados ao meio no sentido horizontal
  • Azeite
  • Ervas para temperar peixe (o Pão-de-Açúcar vende uma bandejinha já com coentro, tomilho, dill, sálvia etc.)
  • 4 dentes de alho fatiados finos
  • Sal e pimenta-do-reino a gosto

MODO DE PREPARO

Num refratário de porcelana, disponha os filés de salmão e os tomates. Não usei exatamente filés de salmão com 180g – comprei um filé de aproximadamente 500 g e fatiei. Se puder tirar a pele antes, melhor. Minha faca não é muito boa e tive dificuldade em fatiar o salmão…

Salpique as ervas e os alhos, já picados, e jogue o sal e a pimenta do reino. Não é preciso esfregar o sal pelo peixe antes, basta jogar o sal e a pimenta por cima, como se estivesse salgando uma salada ou pipoca. Pré-aqueça o forno por 10 minutos aos 250 graus e leve o refratário ao forno por mais uns 20 minutos. Vá olhando o peixe e os tomates, e se for preciso, deixe mais um pouco no forno. Quando o salmão estiver opaco, pode retirar do forno. No meu, eu tive que deixar por 30 minutos a 250 graus e por mais 5 minutos a 290 graus, o tempo em que eu preparei uma salada.

salmão com salada

O antes

Servi o salmão com uma salada fresca: alface americana, mini agrião, pepino, tomates-cereja e palmito picado. Temperei com limão, sal, azeite e salpiquei um pouco de gergelim preto torrado e moído. Pode-se colocar algumas azeitonas pretas também. E no prato, coloquei algumas amêndoas para deixar o prato mais crocante, afinal, todo prato deve ter um pouco de crocância :)

O resultado foi que eu me diverti bastante preparando esta receita super fácil, bonita de se ver e saborosa (ficou realmente gostoso), e, mais importante: provei pra mim mesma que yes, I can. Olha só o resultado:

Salmão com tomates ao forno e salada verde

Salmão com tomates ao forno, salada verde e amêndoas. Bem bom :)

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vinte e nove

Meia-noite em ponto e ela recebe um sms com os parabéns da melhor amiga. Durante as duas horas que se seguem antes de pegar no sono, acompanha com os ouvidos as poucas mensagens que chegam pelo Facebook e que irritantemente apitam no celular. Dorme. Deveria acordar bem cedo, correr no Ibirapuera…tinha o dia todo planejado. Acorda apenas com o celular tocando. Era seu pai, que sempre liga no horário em que ela nasceu: 9h25m da manhã. Atrasada, pula da cama, toma um banho rápido e já não consegue lembrar o que havia planejado vestir. Troca de roupa umas duas vezes. Prepara seu café da manhã e acompanha um pouco mais as mensagens de aniversário chegando pelo Facebook. Já está atrasada quando a amiga liga para saber se a veria no trabalho ou não. Maquiagem, escova no cabelo e rua. Chega num bom humor familiar de um lindo dia ensolarado de primavera e já recebe alguns abraços de parabéns. Sinceros abraços, sinceros desejos. Um bolinho com uma vela já a esperava em cima de sua mesa, o que a deixa tão secretamente comovida quanto alguns abraços. Logo chegaria o almoço. Mesa para dez, por favor. Apareceram catorze. Mesa cheia, pessoas queridas, felicidade inocente. À tarde, recebe flores, mais abraços e mais presentes. Convencida por exatamente três amigos, ela aceita comemorar a data em seu apartamento, mais à noite. A casa cheia a deixa levemente tonta, mas feliz. E os amigos parecem se sentir em casa, já conhecem “as regras da casa” e não têm frescuras. Ganha mais presentes, bebe pouco, come menos ainda – não precisa de nada. Quando todos se vão, entra no banho e se dá conta de que poucas vezes fora tão feliz. E de que o motivo dessa felicidade não estava nos presentes, nos parabéns do Facebook, descaradamente superficiais (qual é, todos sabem disso…), ou na sobremesa dividida com os comensais no almoço. Ela começa a se ver como um personagem que participa da vida de cada uma daquelas pessoas de uma forma única, mais intensamente de uns do que outros, mas sempre de forma única. E esse pensamento a consome como um relaxante muscular, daqueles que causam um leve e delicioso delírio, e a preparam para dormir. Havia completado vinte e nove anos.

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10 anos em São Paulo

Este ano completo uma década de vida paulistana. Pra ser mais precisa, completo 10 anos mesmo em fevereiro do ano que vem. Acontece que ontem me dei conta de que já havia passado uma vida longe de Ribeirão, longe de casa, e resolvi relembrar essa trajetória pelas músicas que marcaram cada um desses meus 10 anos. Difícil escolher apenas uma para cada ano, um pouco menos difícil escolher 2. Portanto, aí vão meus dez anos em 20 canções:

2002

Haja o que Houver – Madredeus. Estava apaixonada. Muito. E por tudo.

Esquadros – Adriana Calcanhotto. Ouvia muito Adriana Calcanhotto com a Suzana, que me hospedou no CRUSP. Suzana e eu: foi quase amor à primeira vista.

2003

Picture Perfect – Maybees

Ganhei o CD do Maybees do Eduardo. Não tem vídeo. Estou pensando em eu mesma gravar um cover pra postar aqui, alguém toca violão pra mim? :P

Erika – Maybees. Outra do Maybees. Ouvia muito esse CD quando era meu dia de fazer a faxina na república.

2004

Capitu – Luiz Tatit. Porque adorava as aulas dele e porque tirei 10 num trabalho de Fonética e Fonologia que fiz em cima dessa letra.

Rollercoaster – EBTG. Estava descobrindo EBTG com o Eduardo e com o Júnior. Foi o primeiro ano na república da av. Caxingui, a Família Vende-Tudo.

2005

There is a light that never goes out – The Smiths. Porque é a música mais foda do mundo. E também porque me lembro da Tina me dizendo: “imagina, Gab, você e seu amorzinho, voltando de uma balada, ouvindo essa no carro”. Mas na época meu amor não tinha carro e não gostava de baladas.

Suedehead – Morrissey. Era estagiária de criação na TeRespondo. Nós do Editorial sempre cantávamos essa em voz alta. Saudades…

2006

This is the day – The The. Foi qundo o Júnior veio morar com a gente na Família Vende-Tudo. Foi ele que me apresentou ao The The.

Build – The Housemartins (Melô do Papel). Foi o Júnior que também trouxe de volta pra minha vida a música que eu mais gostava quando criança.

2007

Rest my chemistry – Interpol. Descobri Interpol pela Tina. Ouvia essa no carro over and over and over again. E no trabalho também. Apesar da letra, acho que é uma das melodias mais sexy que já ouvi.

Like Dylan in the movies – Belle and Sebastian. Ouvíamos muito Belle and Sebastian na república. Mas em 2007 éramos só eu, Alexandre e Sebastian.

2008

Don’t look back – Télépopmusik. Ano difícil. Foi preciso tomar coragem e não olhar para trás.

Sentimental – Los Hermanos. Não lembro porque ouvi tanto essa música nesse ano. Mesmo…

2009

All I Need – Radiohead. Separação. Show foda do Radiohead.

Enjoy the Silence. Buenos Aires, tattoo e show do Depeche Mode. Nesse aí, eu estava lá!

2010

Ready to start – Arcade Fire. Trilha do caminho da roça. Quando minha avó faleceu, na viagem até Ribeirão, essa era a única coisa que eu conseguia ouvir.

Kids – MGMT. OK, ninguém aguenta mais essa. Nem eu. Mas até hoje quando toca na pista, eu e Ecilinha sempre piramos.

2011

Obstacle 1 – Interpol. Não sei explicar. Simplesmente me apaixonei por ela. Meu silêncio. Fernando que o diga.

Transmission – Joy Division. Porque eu gosto de tocar o baixo imaginário. Dance dance dance dance to the radio.

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Uma leitura do conto “Noite de almirante”, de Machado de Assis

Trabalho para a disciplina Literatura Brasileira IV, ministrada pelo prof. Dr. José Miguel Wisnik, em 2004, quando eu cursava o terceiro ano do curso de Letras. Esse eu encontrei vasculhando meu email, uma agradável surpresa :)

O conto “Noite de almirante” foi publicado inicialmente no periódico Gazeta de Notícias, em 1884, e mais tarde incluso na coletânea Várias Histórias, de 1896. Outras antologias foram lançadas por Machado de Assis, contendo muitos de seus melhores trabalhos. O critério de escolha para a organização das coletâneas era simplesmente a seleção de contos publicados em anos anteriores e que teriam sido apreciados pelos leitores, o que garantiria a venda. Como nota John Gledson, o reflexo desse critério de escolha dos contos se dá nos títulos pouco expressivos das antologias, a saber, Histórias sem Data, Páginas Recolhidas e o nosso Várias Histórias. A exceção fica por conta de Papéis Avulsos, de 1882, onde em seu prefácio o autor nos oferece a explicação, que tiraria as primeiras impressões, equivocadas, a respeito do título1.

Noite de Almirante

"a fina flor dos marujos"

O episódio narrado em “Noite de almirante” é o do marinheiro Deolindo Venta-Grande, “a fina flor dos marujos”, e de sua namorada Genoveva, “caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido”. Deolindo precisa se ausentar por alguns meses em “viagem de instrução”. Genoveva e Deolindo, quando se conheceram, “ficaram morrendo um pelo outro”, ao ponto de cogitarem a idéia de irem morar em uma vila no interior, ele abandonando o serviço e ela acompanhando-o. Quem os faz desistir dessa “cabeçada” é a velha Inácia, que morava com Genoveva. Deolindo segue então em sua viagem, mas não antes de jurar fidelidade durante a sua ausência da cidade e de obter da amada igual promessa: “Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte”. Quando o marujo finalmente retorna, seus amigos dizem-lhe que essa lhe será uma “noite de almirante”, pois a passaria nos braços da amada cabocla. Deolindo segue rumo à casa de Genoveva, cuidando que ela esteja debruçada à janela, à sua espera. Mas não é ela quem vem à porta, mas a velha Inácia, que se revela no conto uma personagem de caráter gnômico, contando o desatino da cabocla: “Está com um mascate, José Diogo. (…) Não imagina a paixão que eles têm um pelo outro”. Foi a velha que antes os alertou para que não fugissem: “Não me fale nessa maluca, arremeteu a velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o lindo amor”. O marujo foi até a nova casa de Genoveva e encontrou-a à janela sim, mas sentada, cosendo. Ela convida-o a entrar, o que inspira em Deolindo uma ponta de esperança de que a velha tenha se enganado. Mas a falta de comoção ou intimidade da cabocla fê-lo perder a última esperança. Quando interpelada por Deolindo, Genoveva, com uma “mescla de candura e cinismo, de insolência e simplicidade”, diz a verdade, a mesma que contou a velha. E não se arrepende, mas confessa abertamente que, quando lhe jurou fidelidade, era verdade, “mas vieram outras coisas…veio este moço e eu comecei a gostar dele”. Ao ir embora, depois de entregar à amada os brincos que comprara pensando nela, junto com outros regalos, e de, tomado pelo “demônio da esperança”, contar algumas anedotas de bordo a ela e uma amiga que por lá pilhou, o marujo confessa a Genoveva que vai matar-se e a respeito disso comenta a cabocla à amiga: “Qual o quê! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as coisas, mas não faz”. Assim sucedeu, não se matou. E no dia seguinte, como se tivesse tido uma grande noite, respondia a todas as perguntas dos companheiros, que cumprimentaram-no pela noite de almirante.

Machado de Assis

Machado de Assis

A tradição tem em Machado de Assis o maior mestre do romance realista no Brasil. Com efeito, obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro são extremamente caras à nossa história literária e consideradas por críticos como Lúcia Miguel-Pereira, superiores ao que em seu tempo se escreveu e à maioria dos livros que vieram depois. Entretanto, a fortuna crítica por muito tempo desprezou as obras primas da narrativa curta que Machado produziu. A própria Lúcia Miguel-Pereira reconhece que “foi incontestavelmente como contista que Machado de Assis fez suas obras primas”2, porém, como assinala John Gledson3, ela abre pouco espaço para um estudo dos contos em seu ensaio sobre a prosa de ficção, demonstrando como eles são, a despeito dos romances, relegados a segundo plano. Machado de Assis escreveu cerca de duzentos contos e essa predileção pela narrativa curta talvez se explique pela problematização de temas que posteriormente foram desenvolvidos nos romances, configurando-se assim tópicas recorrentes na obra machadiana; outro indício é o da existência de episódios, verdadeiros exemplos de pequenas narrativas, dentro dos romances da segunda fase. O incidente do Almocreve, em Memórias Póstumas de Brás Cubas ilustra bem isso. O conto é o espaço propício para retratar uma diversidade de situações e traços psicológicos. Conforme observa Alfredo Bosi4, percebe-se que o narrador conduz o enredo sempre para revelar ou insinuar a precariedade da consciência moral das personagens, o que é uma constante em sua obra. De fato, muitos de seus contos têm um tom trivial, anedótico, carregados de ironia, a qual, através de subentendidos e alusões, não permitia que se chocasse as exigências da moral familiar, numa época em que naturalistas atiravam ao público, ainda bastante romântico, descrições minuciosas da vida fisiológica.5

Neste trabalho, nos deteremos a analisar a recepção de “Noite de almirante” por um público romântico e o tema da volubilidade feminina, desenvolvido pelo “feminismo machadiano”. Esse tema é recorrente em outros contos e personagens de romances de Machado e dialoga com a literatura local e universal.

O conto em questão é permeado por uma expectativa romântica que produz ao público da época6, ávido por um desfecho que contemple tal esperança: a concretização do amor. A história inicia-se in media res, quando Deolindo retorna ao Rio de Janeiro após uma viagem que por alguns meses o afastou de Genoveva. Ele sonha com o momento de revê-la, com a noite que o esperava em terra, sonho esse alimentado pelos comentários dos colegas: “Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva…”. Mas é também o sonho do leitor que esses comentários alimentam. É uma noite inesquecível que eles esperam ler: a realização de uma paixão, adiada por uma obrigação de trabalho. A expectativa vai aumentando quando o marujo caminha pelas ruas do Rio de Janeiro, em direção à casa da amada, onde à janela ela estaria, esperando por ele – assim o próprio narrador diz, como também especula que regalo a cabocla guardaria a Deolindo, posto que ele os trazia para ela: “Foi à custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ela que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome dele e uma âncora na ponta, porque ela sabia marcar muito bem”.

A jura que Deolindo e Genoveva fizeram um ao outro antes da viagem, um “contrato”, como diz o narrador, parecia ser a garantia de que o marujo encontraria, ao voltar, a mesma amada, na mesma casa, com a mesma paixão, e também a garantia de que a expectativa do leitor, a mesma de Deolindo, se concretizaria ao final do conto. Mas a situação com que nos deparamos é diversa: meses depois, cumprindo sua parte na jura, tendo resistido a todas as tentações, o marujo encontra Genoveva amasiada com um mascate. Rompeu-se o contrato, mas o conto ainda oferece ao leitor romântico indícios de uma possível re-união do casal. A mesma expectativa romântica é inspirada pelo conto “A cartomante”. A narrativa também se inicia in media res, quando a bela Rita conta ao amante Camilo que teria ido visitar uma cartomante para saber se ainda era amada por ele. O marido parece nada desconfiar, o amante de sua esposa é seu melhor amigo e freqüenta sua casa. O amor de Rita e Camilo não tem empecilhos, até o momento em que ele recebe uma carta anônima dizendo-lhe que a aventura dos dois era sabida de todos. Por precaução, ele rareou as visitas à casa do amigo Vilela; este notou sua ausência e mostrou-se sombrio, como que desconfiado. Até esse momento do conto, o leitor se apraz com os amores dos apaixonados. Entretanto, quando Camilo recebe um bilhete de Vilela pedindo-lhe que fosse ter com ele o mais rápido possível, paira o suspense da desmascaramento dos amantes. Vilela saberia de tudo e por isso chamou Camilo, que pensava tal coisa e outras também. À caminho da casa de Vilela, Camilo decide parar na casa da cartomante que Rita visitou e que lhe diria que não se preocupasse, que o outro de nada sabia. Aqui, está claro, com o bilhete de Vilela, que o desfecho seria trágico, expectativa que é quebrada pela sentença da cartomante, que reacende a esperança romântica do leitor, no entanto, o conto termina de modo violento, mas não inesperado, obedecendo sua lógica interna dos acontecimentos. A ironia está no papel da cartomante, uma charlatã. Sua autoridade é fundada em crendices: mesmo Camilo afirmando-se cético, como retrata o conto, ele fia-se no charlatanismo, em crendices populares. O final desta história tapeia a expectativa romântica do leitor ingênuo que espera sempre pela vitória do amor.

Assim como n’“A cartomante”, em “Noite de almirante” a lógica dos acontecimentos e o caráter das personagens leva a um final menos trágico, mas que também não contempla a recepção romântica. A notícia de que Genoveva não cumpriu com a jura vem pela velha Inácia, que aqui tem o mesmo papel gnômico da cartomante, porém, sua autoridade funda-se em sua experiência de vida, diferentemente da adivinha, e assim, mostra-se muito mais confiável. Antes da viagem, a velha os aconselhou para que tivessem prudência, para não se precipitarem; agora, ela aconselha Deolindo a acalmar-se: “A velha disse-lhe que descansasse, que não era nada, uma dessas coisas que aparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada…”. Ela sabe do caráter frívolo de Genoveva a até alerta o marujo disso. Porém, tomado de fúria, ele vai atrás da cabocla, para verificar com seus próprios olhos o que diz a velha, e com a confirmação de Genoveva, caem por terra suas últimas esperanças, e também as do leitor. Ao se despedir da amada, ele diz que vai se matar, o que aumenta a tensão em torno da narrativa. O desfecho, no entanto, é deveras frustrante para o leitor, embora não seja surpreendente: Deolindo não é tão impetuoso a ponto de matar-se de fato, assim como não o foi para ir-se com Genoveva ao interior, abandonando sua obrigação de serviço. Cumpre-se assim a lógica do conto e Deolindo, no dia seguinte, gaba-se aos amigos da grande noite que passara com Genoveva.

Atentemo-nos agora a Genoveva. A “caboclinha de vinte anos” faz parte da segunda classe feminina elencada por Machado de Assis7. É de uma classe social mais baixa, que tem que se arranjar por si mesma. Ela é sensata demais e esperta – como o próprio narrador diz – para acreditar eternamente na jura de Deolindo. Assim, como Genoveva é Marocas, do conto “Singular ocorrência”, que necessita de uma estabilidade, ou de alguém que a estabilize, para sobreviver8, ou mesmo Conceição, de “Missa do Galo”. Por conta dessa consciência de sua situação, Genoveva não se arrepende da jura não cumprida9. O próprio narrador intervém para explicar a cabocla aos leitores: “Vede que estamos aqui muito próximos da natureza”. É uma natureza que não conhece culpa, nem traição, nem candura, mas sim necessidade, conforme assinala Alfredo Bosi, em seu artigo “A máscara e a fenda”. 10 E assim, nessas e outras histórias, se revela o ponto de vista de Machado de Assis sobre a condição da mulher brasileira no século XIX, ou seja, o “feminismo machadiano”.

NOTAS

1 GLEDSON, John. Machado de Assis: Contos / Uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 20.

2 PEREIRA, Lúcia Miguel. “Machado de Assis”. In História da Literatura Brasileira. Prosa de ficção: de 1870 a 1920. Rio de Janeiro/Brasília: Livraria José Olympio/MEC, 1973, p. 100.

3 GLEDSON, op. cit. p. 15.

4 BOSI, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Publifolha, 2002, p. 79.

5 CANDIDO, Antonio. “Esquema de Machado de Assis”. In Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970, p. 19.

6 Machado de Assis tinha plena ciência de que escrevia para um público, em sua maioria, feminino.

“Duas são as nossas classes feminis – uma crosta elegante, fina, superficial, dada ao gosto das sociedades artificiais e cultas; depois a grande massa ignorante, inerte e virtuosa, mas nem sem impulsos, e em caso de desamparo, sem iniciativa nem experiência”. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Obras Completas, vol 3, p. 1004. In GLEDSON, op. cit., p. 46.

“Mesmo quando tem um protetor, não pode sentir-se segura. Não poderia ser que essa insegurança, exacerbada pelo fato de que, nesse feriado, todos estão com suas famílias, a faça buscar companhia e calor humano – até calor sexual? – da única maneira que lhe é possível?” In GLEDSON, op.cit., p. 48.

“Cada indivíduo, nesse caso, afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas e atento apelas ao que o distingue dos demais, do resto do mundo.” In HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 155.

10 BOSI, Alfredo et aliiMachado de Assis – antologia e estudos. São Paulo: Ed. Ática, 1982, p. 452.

BIBLIOGRAFIA

BOSI, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Publifolha, 2002

BOSI, Alfredo et alii. Machado de Assis – antologia e estudos. São Paulo: Ed. Ática, 1982

CANDIDO, Antonio. “Esquema de Machado de Assis”. In Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970

GLEDSON, John. Machado de Assis: Contos / Uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Obra Completa, vol. II, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

PEREIRA, Lúcia Miguel. “Machado de Assis”. In História da Literatura Brasileira. Prosa de ficção: de 1870 a 1920. Rio de Janeiro/Brasília: Livraria José Olympio/MEC, 1973

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Diálogos imaginários

Resolvi reavivar meu tumblr. Siga-me no Diálogos Imaginários.

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rasgo

queria dizer que menti.

na carta escrevi que tinha pouco a dizer.

quando me disse no imperativo “conta”, eu calei.

menti.

tenho muito a dizer.

quero apenas que você me ouça. e me abraçasse quando eu pedir. não precisa dizer nada.

ultimamente tenho pensado muito sobre mim e minha vida. cheguei a tristes conclusões. o que se vê é uma fachada. todos acham que sou forte, que tudo posso, que consigo tudo o que quero, que não precisam se preocupar comigo. mas eu sou fraca e tenho medo, muito medo de que me magoem. e por isso não deixo que pessoa sequer se aproxime ou entre em minha vida.

venho acumulando sucessivas relações superficiais, das quais eu imagino sair sempre ilesa.

as três vezes em que estive contigo foram algumas das horas mais agradáveis que tive nos últimos anos. por isso, queria te pedir uma coisa: não me conte detalhes, não me envie músicas, não me dê mais bom dia, não abra a sua casa e a sua vida para mim se não estiver disposto a me acolher.

é um pedido honesto. há 3 anos eu não me permito sentir nada. estava magoada, ferida de guerra. e por mais que agora a ferida esteja se curando, a cicatriz ainda está fina demais.

esta sou eu sem mimimi, que num raro momento de humanidade, abri meu coração.

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Fragmento 1

No colo segurava a bolsa, uma revista de modas e o recém-tirado raio-x de seu tornozelo enquanto procurava a referência 23 do capítulo 1 do livro que recomeçara a ler. Por que receitariam sapos secos para a peste negra? Na mesma sala um senhor se queixava de sua mãe, doente de Alzheimer, prostrada em uma cama de hospital após sofrer uma cirurgia no joelho. Não ia ser fácil – “o que houve com minha perna? aqui é a casa de quem?” -sofria ele. Mas por que diabos sapos secos?

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